Duas pessoas escutam o mesmo conto.
Uma se lembra da floresta e talvez até do cheiro da terra. A outra quase não percebe as árvores, mas não consegue esquecer a janela de uma casa.
Uma sente alívio com o final. A outra permanece incomodada com aquilo que não foi dito.
Essa diferença não é uma falha de atenção nem um erro de compreensão. Ela mostra uma característica importante da linguagem simbólica: a história não chega a um espaço vazio. Ela encontra memórias, afetos, histórias familiares, valores, perguntas e momentos de vida diferentes.
Por isso, os símbolos na Contoterapia Sistêmica não funcionam como palavras de um dicionário secreto. Uma imagem não possui necessariamente um único significado, pronto para ser revelado pela facilitadora.
Isso também não significa que qualquer interpretação serve. O sentido precisa manter relação com a narrativa, com o lugar ocupado pelo símbolo dentro do conto e com a experiência de quem o escuta.
O que é um símbolo dentro de uma narrativa?
Um símbolo é uma imagem capaz de reunir mais de um sentido.
Uma ponte pode aproximar duas margens, mas também pode representar passagem, risco, despedida, encontro ou escolha. Essas possibilidades não precisam ser definidas antes da escuta.
Personagens, lugares, objetos e acontecimentos formam uma paisagem narrativa. Para compreender um símbolo, não basta retirá-lo da história e atribuir a ele uma tradução. É necessário observar quando ele aparece, o que acontece ao seu redor e como interfere no percurso das personagens.
O símbolo faz parte da história inteira
A mesma porta pode cumprir funções diferentes em dois contos. Em um, pode proteger. Em outro, pode impedir uma passagem. Em outro ainda, talvez marque a entrada em um lugar desconhecido.
O sentido não está apenas no objeto. Está também na relação que esse objeto estabelece com as personagens, com os acontecimentos anteriores e com aquilo que se transforma depois de sua aparição.
Por isso, a leitura simbólica não consiste em procurar uma definição isolada. Ela acompanha o movimento da narrativa.
Aquilo que chama a atenção também importa
Durante a escuta, uma pessoa pode se interessar pela personagem principal. Outra pode ser tocada por um detalhe aparentemente pequeno: uma chave, um animal, uma janela ou uma frase.
Às vezes, uma imagem chama a atenção imediatamente. Em outras ocasiões, parece comum, mas retorna dias depois, ligada a uma lembrança ou a uma pergunta que ainda não havia encontrado espaço.
Não é necessário procurar significado para todos os elementos. Aquilo que permaneceu na memória já pode oferecer um ponto de partida para a reflexão.
Existe uma interpretação correta para os símbolos?
Não existe uma única leitura que a facilitadora precise revelar como uma verdade escondida.
Quando alguém afirma que determinado símbolo sempre significa a mesma coisa, reduz a riqueza da narrativa e corre o risco de substituir a experiência da participante por uma explicação pronta.
Ao mesmo tempo, uma interpretação não deve ser construída sem considerar o conto. O símbolo precisa ser observado dentro da sequência da história e não apenas associado livremente a qualquer ideia.
A facilitadora pode apresentar possibilidades de leitura e fazer perguntas como:
- O que mudou na narrativa quando a personagem atravessou a porta?
- Como essa personagem se relacionava com a casa, a floresta ou a ponte?
- Que parte da história despertou proximidade ou incômodo?
- Qual imagem permaneceu com você depois da escuta?
- Houve algum trecho que você teria preferido evitar?
Essas perguntas ajudam a abrir caminhos de reflexão. Elas não determinam o que a história obrigatoriamente significa para cada participante.
O que o olhar sistêmico acrescenta à leitura do conto?
A Contoterapia Sistêmica é uma proposta autoral desenvolvida por Vanilda Mendonça. Ela dialoga com sua experiência em Constelação Familiar e incorpora um olhar atento aos vínculos, às formas de pertencimento, aos lugares ocupados nas relações, às histórias familiares e aos movimentos que se repetem.
Isso significa que uma narrativa pode ser observada não apenas pelo que acontece com uma personagem isolada, mas também pelas relações que ela estabelece.
Quem fica de fora da história? Quem assume responsabilidades que não lhe cabem? Quais vínculos sustentam uma escolha? Como cada personagem responde diante da aproximação, da separação ou da mudança?
Essas perguntas não servem para declarar verdades sobre a família da participante. O conto não identifica acontecimentos desconhecidos, não revela segredos familiares nem comprova que determinada situação do presente foi causada por um antepassado.
O olhar sistêmico oferece uma forma de refletir sobre relações e posições. A participante continua livre para reconhecer o que faz sentido, discordar de uma leitura ou perceber que determinada aproximação não corresponde à sua experiência.
Por que algumas histórias incomodam?
Nem toda narrativa chega de maneira suave.
Uma personagem pode despertar irritação. Um desfecho pode parecer injusto. Uma cena pode provocar vontade de interromper a escuta. Às vezes, o incômodo não está no que a história mostra, mas no que ela deixa sem resposta.
Na Contoterapia Sistêmica, esse desconforto não precisa ser tratado imediatamente como uma resistência a ser vencida. Ele pode indicar um limite, uma diferença de valores, uma discordância ou um assunto do qual a pessoa deseja se aproximar devagar.
A participante pode compartilhar somente uma parte do que percebeu, permanecer em silêncio, pedir uma pausa ou reconhecer que aquela narrativa não faz sentido para ela naquele momento.
O limite não deve ser interpretado como falta de entrega. Ele precisa ser ouvido e respeitado.
O sentido de uma história pode mudar com o tempo?
Sim.
Voltar a um conto depois de uma mudança, uma perda, um encontro ou um recomeço pode fazer com que outras passagens chamem a atenção.
O conto permanece escrito com as mesmas palavras, mas quem retorna a ele já não ocupa exatamente o mesmo lugar.
Isso não torna a primeira percepção errada. Ela correspondia às condições daquela escuta. Os sentidos podem acompanhar as mudanças da vida e não precisam ser encerrados em uma interpretação definitiva.
O que é a Contoterapia Sistêmica e quais são os seus limites?
A Contoterapia Sistêmica é uma proposta autoral de reflexão e desenvolvimento pessoal criada por Vanilda Mendonça. Nos encontros, contos e outras narrativas podem ser acompanhados por perguntas reflexivas e movimentos sistêmicos.
A proposta dialoga conceitualmente com a Constelação Familiar. Essa relação aparece no modo de observar vínculos, pertencimento, lugares ocupados, histórias familiares e movimentos relacionais.
A Contoterapia Sistêmica, entretanto, não é Psicoterapia nem uma técnica reconhecida da Psicologia. Ela não realiza diagnósticos, não trata doenças e não substitui acompanhamento psicológico, médico ou outros cuidados profissionais necessários.
A narrativa também não:
- prevê o futuro;
- revela segredos sobre outras pessoas;
- comprova acontecimentos familiares;
- determina escolhas;
- oferece uma interpretação definitiva sobre a vida da participante;
- promete cura ou resultado.
Seu propósito é oferecer uma linguagem simbólica e um espaço cuidadoso de reflexão, preservando a liberdade da pessoa para reconhecer o que lhe diz respeito e deixar de lado aquilo que não corresponde à sua experiência.
Dúvidas frequentes sobre os símbolos na Contoterapia Sistêmica
Os símbolos dos contos possuem significados fixos? Não. Uma floresta, uma chave ou uma ponte podem assumir sentidos diferentes conforme a narrativa e a relação que cada participante estabelece com ela. O símbolo deve ser observado dentro do conto, e não consultado em uma tabela universal.
Preciso saber interpretar símbolos para participar? Não. A participante não precisa conhecer teorias sobre símbolos nem compreender intelectualmente todos os elementos da história. Uma imagem, uma sensação ou uma pergunta podem oferecer um ponto de partida, mas não é obrigatório encontrar significado para cada detalhe.
A facilitadora interpreta o conto para a participante? A facilitadora pode apresentar elementos da narrativa, formular perguntas e compartilhar possibilidades de leitura. Ela não deve impor uma interpretação nem afirmar que conhece melhor do que a participante aquilo que a história despertou nela.
Posso discordar da leitura apresentada no encontro? Sim. Discordar, não se identificar ou dizer que algo não faz sentido também faz parte do trabalho. A percepção da participante deve ser respeitada e não substituída por uma explicação externa.
Por que uma história pode continuar ecoando depois do encontro? Algumas imagens podem reaparecer ligadas a lembranças, acontecimentos ou novas perguntas. Isso pode acontecer logo depois da escuta ou algum tempo mais tarde. Não é necessário apressar uma conclusão nem atribuir significado a tudo o que retornar.
Qual é a relação entre Contoterapia Sistêmica e Constelação Familiar? A Contoterapia Sistêmica dialoga com a experiência de Vanilda Mendonça em Constelação Familiar e incorpora perguntas e movimentos relacionados a vínculos, pertencimento e lugares ocupados. São propostas distintas, embora possam conversar conceitualmente dentro do trabalho desenvolvido por Vanilda.
Contoterapia Sistêmica é uma forma de Psicoterapia? Não. A Contoterapia Sistêmica não é Psicoterapia nem técnica psicológica. Ela é uma proposta autoral de reflexão e desenvolvimento pessoal e não substitui acompanhamento psicológico, médico ou qualquer tratamento necessário.
Uma história não termina na última frase
Talvez uma das forças de um conto esteja justamente em não nos dizer tudo. A narrativa deixa espaços nos quais nossas próprias perguntas podem surgir e respirar.
A mesma história toca cada pessoa de uma maneira porque cada escuta acontece dentro de uma vida singular.
Nos encontros em grupo, ouvir como outras pessoas se relacionaram com o mesmo conto pode ampliar a percepção sobre a narrativa. Não se trata de adotar a interpretação do outro, mas de perceber que uma história comporta mais de uma aproximação.
O grupo não completa aquilo que faltava à participante nem revela uma verdade que ela seria incapaz de perceber sozinha. Ele oferece outros ângulos, outras perguntas e diferentes maneiras de se relacionar com a mesma narrativa.
Conheça as próximas vivências e workshops de Contoterapia Sistêmica conduzidos por Vanilda Mendonça.

