Neste mês fui convidada, pela Marina Marino, a escrever sobre Constelação Familiar em sua revista literária, a Voo Livre. Diante do desafio e responsabilidade de trazer algo novo – afinal o material sobre o assunto é muito vasto, não só escrito por Bert Hellinger, mas também por tantos de seus seguidores – resolvi escrever através de uma analogia que criei e gosto muito, assim acredito que ajude a compreender melhor.
Imagine que ao nascer você é um personagem novo, em um capítulo novo de um livro (sistema) que vem sendo escrito há muitos e muitos séculos. Este livro é de edição única, não permite revisão e nem erratas. Na história dele aconteceram nascimentos, mortes prematuras, outras violentas, outras longevas; houveram grandes conquistas, grandes perdas, guerras, sonhos realizados, sonhos perdidos, roubos, encontros, desencontros, abandonos, enfim muitos acontecimentos que foram conectando cada personagem da história e criando como uma grande rede que liga, une a todos. Você vem de um destes acontecimentos. O encontro entre seu pai e sua mãe. Talvez eles tenham lhe desejado e tenha sido tudo planejado, talvez tenha sido um encontro fortuito ou mesmo violento, não importa. O que realmente importa é que através deste encontro você recebeu o bem maior, a vida.
O lugar que você ocupará na trama, as pessoas com quem irá se relacionar, como e por quem será cuidado, está em função de tudo o que ocorreu antes. Como bebê você será colocado em um mundo com regras, com pesos e padrões que já estão postos e independem de você. O que o conecta a todo este sistema é o Amor. Não o amor romântico e sim o Amor ao sistema, à manutenção da vida, à sobrevivência da espécie. Inicialmente você não tem desenvolvida a racionalidade, você é apenas instinto, sensações, emoções e de forma inconsciente, desde o ventre da mãe, se conecta a todos que te antecederam.
Desta forma, muito do que você é, dos seus comportamentos, atitudes, padrões de repetição, crenças limitantes, senso de certo e errado, está em função daqueles que vieram antes no seu sistema familiar e aos quais você está conectado inconscientemente.
Bert Hellinger, foi um grande estudioso e pesquisador do comportamento humano e através de seus conhecimentos como terapeuta de grupo, de família, estudos sobre os Campos Morfogenéticos, além de vasta experiência como missionário junto a tribos Zulus, estruturou o trabalho terapêutico das “Constelações Familiares” que permite trazer à tona os conteúdos inconscientes, aos quais ele chamou de emaranhados.
Todo sistema possui leis que regem e ordenam as relações entre seus diversos elementos e estas leis surgiram na medida em que o sistema foi se organizando. Todos os elementos do sistema estão sujeitos a estas leis, mesmo que não as conheçam ou que não concordem com elas. Bert foi quem percebeu a existência destas leis, passou a estuda-las e a experimenta-las em seus trabalhos. Inicialmente ele nos apresentou três leis:
- Pertencimento, que diz que cada membro da família tem direito de pertencer ao sistema, assim como todos os outros membros. Todos têm o mesmo direito de pertinência.
- Hierarquia, que diz que todos os que vieram antes no sistema têm precedência sobre os que vieram depois, estão a mais tempo e por isso são maiores do que os que vieram depois. A força flui do maior para o menor.
- Equilíbrio entre o dar e o tomar, que diz que todos sentem a necessidade de equilíbrio. Quem recebe algo tem a necessidade de recompensar na mesma medida em que recebeu e isto permite o fluir das relações dentro do grupo.
Atualmente seus discípulos também falam na quarta lei:
- Aceitação ou Assentimento, que diz que tudo o que aconteceu no sistema foi exatamente como deveria ser e nada pode ser mudado no passado. O livro não pode ser reescrito, nem páginas podem ser arrancadas. É dizer Sim à vida como ela chegou até nós. Aceitar não significa concordar, significa tomar a vida com humildade e fazer algo de bom com ela.
O trabalho da Constelação Familiar consiste em olhar, a partir do tema do consultante, a quem ele está conectado, quais leis foram desrespeitadas que fazem com que ele esteja emaranhado nos destinos de membros que o antecederam na família. É um convite à tomada de consciência e mudança de atitude e postura diante da vida.
Pode ser feita individualmente como uso de diversos materiais ou em grupo com auxílio de representantes para os elementos do sistema.
Por ressonância, ao assistir uma Constelação Familiar sempre aprendemos algo; ao participar sempre trabalhamos algo de nosso próprio sistema e ao sermos constelados temos a oportunidade de nos libertarmos mais facilmente de pesos e destinos que carregamos inconscientemente.
Como disse inicialmente, é muito conteúdo e muito complexo para ser abarcado em um artigo. A melhor maneira de compreender é participar de um trabalho de Constelação Familiar.
Para conhecer a versão completa deste mês da Voo Livre, clique em: https://issuhub.com/view/index/56942