Eu julguei muito minha mãe, ela não me dava o que eu queria.
Ela sempre estava envolvidas com seus problemas, com seus afazeres, seu trabalho, suas doenças, seus amores, enfim com um monte de coisa que não me dizia respeito e eu me ressentia disso.
Ela se ocupava dos cuidados que eu e meus irmãos necessitávamos. Alimentação, educação, vestuário, etc… mas eu sentia que era pouco para mim. Eu queria mais e a bem da verdade, nem sei o que exatamente eu queria; só sei que sentia em mim um vazio que atribuía a algo que minha mãe não me dava. Isto em um primeiro momento me entristeceu, depois me revoltou e eu me tornei um gigante diante dela com o dedo em riste apontando todos os “defeitos”, acusando e cobrando o que eu acreditava ter direito.
Lembro de um dia em que me queixando com um amigo, eu disse “minha mãe não me entende mas eu não pedi para vir ao mundo, foi ela quem me fez”. Ele me olhou bem nos olhos e disse “se ela soubesse que viria alguém como você, será que ela teria feito?” Eu era adolescente e foi um soco direto em meu Narcisismo. Ainda assim segui tentando negar em mim minha mãe, querendo fazer diferente dela. Fui fazer teatro, estudei, me rebelei, casei, rompi, parti, voltei, parti novamente, casei novamente, tive filhos e quanto mais eu a julgava e me arvorava a querer ser melhor do que ela, dizer (ditar) a ela o que deveria fazer com sua vida e ressentia do que “havia feito” com a minha, mais eu me parecia e me aproximava dela.
Precisei de muita terapia, algumas Constelações Familiares, muita meditação e principalmente muita humildade para me colocar pequena diante da mulher mais extraordinária que conheço; minha Mãe e recebe-la em meu coração tal qual ela é. Hoje quando olho para trás percebo o quanto fui arrogante e mesquinha diante da grandeza desta mulher que aos 17 anos teve sua primeira filha e aos 25 anos já tinha 4 filhos. Trabalhava e não media esforços para dar o melhor dela, do jeito que podia dar e foi o suficiente para que todos se tornassem os adultos que nos tornamos. Penso que se eu tivesse passado por tudo o que ela passou, eu não teria feito as coisas que ela fez, talvez fizesse muito pior. Que direito eu me dei de julgá-la, como fui tola.
Hoje me orgulho de ser filha de minha Mãe e ser quem sou graças ao que recebi dela. Com certeza não recebi tudo o que queria, mas recebi exatamente tudo o que eu necessitava e era suficiente para ser quem eu sou.
Ela acabou de completar 80 anos e sou muito grata por poder tê-la a meu lado.
Vi meus filhos crescerem e me julgarem e me cobrarem e também me acusarem de não ter-lhes dado o que queriam e me agradecerem pelo que receberam e recebem de mim até hoje. A roda da vida está sempre em movimento, como sempre estará. Meus netos provavelmente também julgarão suas mães e espero que um dia também sejam capazes de serem pequenos diante delas, para que se tornem fortes diante da vida.