Setembro Amarelo


Muitos olhares voltados para um tema considerado tabu, o suicídio.

Quer por medo inconsciente, por estigma ou vergonha, por motivos de caráter religioso, ou outro qualquer, falar de suicídio é bastante desafiador e considerado por muitos um tema proibido, pois exige entrar em contato com a vulnerabilidade humana diante da vida. Porém deixar de falar do assunto não o afasta, ao contrário, a melhor maneira de lidar e prevenir a possibilidade de suicídio é ter conhecimento e falar sobre ele.

É grande a incidência de suicídios entre pessoas com problemas mentais, como depressão e esquizofrenia, principalmente quando associado ao uso abusivo de álcool e outras drogas. A depressão em especial requer atenção, pois a pessoa deprimida não vê sentido na vida e em geral possui baixa autoestima e poucos recursos e repertórios internos para lidar com as adversidades naturais da vida.

Todos nós passamos por momentos difíceis, de perdas, revezes, momentos de solidão, doenças, enfim altos e baixos do nosso processo evolutivo e as dores provocadas por estes momentos, quando adequadamente vivenciadas, trazem aprendizado e crescimento. Porém, quem busca o suicídio está emocionalmente fragilizado, sente-se desesperado, impotente, incapaz de encontrar outra solução e a morte parece ser a única possibilidade de se livrar de dor tão intensa, mesmo sendo uma solução definitiva.

A intenção de morrer também pode ser inconsciente, os chamados equivalentes suicidas, ou suicidas passivos que apresentam comportamentos de risco e busca inconsciente da morte. Por exemplo: uso abusivo de álcool e drogas; dirigir em alta velocidade; descuidar de tratamentos médicos; descuidar da alimentação, como na anorexia ou na obesidade mórbida; vida desregrada; enfim todo e qualquer comportamento que coloque a vida em risco.

O que se observa, surpreendentemente, é que a maioria das pessoas suicidas em potencial se fossem capazes de avaliar suas opções mais objetivamente, escolheriam outra maneira de resolver seus problemas. A intenção é acabar a dor psicológica considerada insuportável e não dar fim à própria vida, o que é positivo quando pensamos no caminho da ajuda, pois grande parte dos suicidas dão pistas e sinais de alerta. Por falta de conhecimento, medo ou limitações, estes sinais podem passar desapercebidos pelos outros e a ajuda acaba por não acontecer.

A falta de informação pode levar a entendimentos equivocados sobre comportamentos de suicidas em potencial. Um desses equívocos é pensar que a pessoa que fala sobre o desejo de se matar está apenas buscando atenção e na verdade não pretende fazê-lo. Falar sobre a desesperança diante da vida e da dor, na maior parte das vezes é um pedido de socorro, um pedido de ajuda. Outro equívoco é acreditar que a pessoa que tentou suicídio uma vez e foi lograda, não voltará a fazê-lo. Estudos mostram que para cada suicídio há entre 10 a 20 tentativas, ou seja, quem já tentou está mais vulnerável, pois passou mais tempo tentando e planejando.

A maior parte dos suicídios são planejados, raramente são decisões repentinas. Alguns sinais podem alertar a intenção da pessoa, como por exemplo; mudança significativa de comportamento, atitudes e aparência; colocar assuntos pendentes em ordem; desfazer-se de bens materiais; realizar visitas inesperadas e despedidas como se não fosse reencontrar as outras pessoas; aumentar comportamentos de risco; demonstrar grande apatia e desinteresse por tudo que se refere à vida diária; isolamento social; abandono de atividades produtivas.

Saber destes sinais pode ser o primeiro passo para buscar ajuda, caso os reconheça em si, ou oferecer ajuda, caso os reconheça em outro.

Se você se identificou com estes sentimentos e sinais, lembre-se que a melhor maneira de lidar é conversando a respeito e buscando ajuda de um profissional. Lembre-se você não está sozinho e o que você sente é possível de ser compreendido e modificado.

Ao oferecer ajuda seja carinhoso, demonstre que se importa com a pessoa. É fundamental conversar abertamente, não apenas sobre fatos, mas sobre a dor, sofrimento, medos, angústias, sem julgamentos, conselhos ou comparações. É importante ter uma escuta ativa, ou seja, ouvir mais, falar menos. O outro precisa sentir que é compreendido, portanto uma postura de empatia é fundamental e mesmo que a pessoa não consiga falar sobre o que se passa com ela, é importante dizer de suas preocupações e observações que o levaram a acreditar na possibilidade dele estar cogitando o suicídio como uma solução. Não mude de assunto, nem tente animar quem apenas está querendo ser ouvido e acolhido.

Caso perceba um perigo iminente, um plano concreto de suicídio, não deixe a pessoa sozinha e nem deixe objetos que possibilitem a ação, por exemplo, facas, remédios, venenos, armas, etc. e, se possível, o acompanhe a um profissional capacitado ou instituição adequada a este tipo de tratamento.

O trabalho com suicida em potencial consiste de auxiliá-lo na busca por novos sentidos na própria vida. Ou seja, um acompanhamento onde possa ser acolhido em sua dor, possa falar sobre os motivos pelos quais vê apenas o suicídio como saída, avaliar suas crenças limitantes. Onde seja capaz de encontrar novas maneiras de lidar com as dificuldades do dia a dia e desenvolver capacidades e competências de confronto e resolução de problemas. Enfim, seja capaz de buscar um novo caminho.

Estas são medidas que podem ajudar a salvar a vida de quem pensa em terminar com ela, porém não são garantias. Mesmo os profissionais capacitados e habilitados a trabalhar com suicídio não são deuses e ainda que venham a detectar todos os sinais e façam tudo que esteja ao alcance, não podem garantir que a pessoa não cometa o suicídio, pois no final das contas a responsabilidade e a decisão última é sempre dela. Não há culpa, nem há culpados.

“Suicídio é, frequentemente, apenas um grito por ajuda que não foi ouvido a tempo”.

(Graham Greene)

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